Dilemas
da formação de professores
A
questão da formação de professores é atravessada por vários dilemas. Dilema é,
como registram os dicionários, uma “situação embaraçosa com duas saídas
igualmente difíceis”; é exatamente essa a situação da formação de professores
diante do confronto entre os dois modelos: aquele centrado nos conteúdos culturais-cognitivos
e aquele referido ao aspecto pedagógico-didático.
O
dilema se expressa do seguinte modo: admite-se que os dois aspectos – os
conteúdos de conhecimento e os procedimentos didático-pedagógicos – devam integrar
o processo de formação de professores. Como, porém, articulá-los adequadamente?
A ênfase nos conhecimentos que constituem a matéria dos currículos escolares
leva a dar precedência ao modelo dos conteúdos culturais-cognitivos. Nesse
caso, na organização institucional, seríamos levados a situar a questão da
formação de professores no âmbito dos institutos ou faculdades específicos.
Inversamente, se nosso ponto de partida for o modelo pedagógico-didático, tenderemos
a situar os cursos no âmbito das faculdades de educação.
No
entanto, levando em conta as tentativas feitas desde 1980 a partir do movimento
pró-reformulação dos cursos de Pedagogia e licenciatura, constatamos que as
duas saídas apontadas resultam igualmente problemáticas, mantendo-se o caráter
embaraçoso da situação.
Tudo
indica que na raiz desse dilema está a dissociação entre os dois aspectos
indissociáveis da função docente: a forma e o conteúdo. Considerando o modo como
estão constituídas as especializações universitárias, dir-se-ia que os
estudantes, que vivenciaram na educação básica a unidade dos dois aspectos, ao ingressar
no ensino superior terão adquirido o direito de se fixar apenas em um deles. Em
consequência, os que foram aprovados no vestibular de Pedagogia não precisam
mais se preocupar com os conteúdos. E os que foram aprovados nos vestibulares
das diferentes disciplinas de licenciatura se concentram apenas nos respectivos
conteúdos específicos, despreocupando-se com as formas a eles correspondentes. Em
decorrência, constata-se que as faculdades de Educação tendem a reunir os
especialistas das formas abstraídas dos conteúdos, enquanto os institutos e faculdades
correspondentes às disciplinas que compõem os currículos escolares reúnem os
especialistas nos conteúdos abstraídos das formas que os veiculam. Ora, se na
raiz do dilema está a dissociação entre os dois aspectos que caracterizam a
função docente, compreende-se que ambos os modelos desemboquem em saídas
embaraçosas, isto é, que não resolvem o dilema em que eles próprios se
constituem. Segue-se, pois, que as duas vias propostas constituem os elementos
do próprio problema cuja solução se busca, não podendo ser, pois, alternativas
para resolvê-lo.
Quais
seriam, então, as perspectivas de solução do dilema?
Texto
extraído do artigo “Formação de Professores: aspectos históricos e teóricos do
problema no contexto brasileiro” de Dermeval Saviani.